5. GERAL 31.10.12

1. NEGCIOS  O RISCO DE NO AGIR
2. ESPECIAL  MACONHA FAZ MAL, SIM
3. GENTE
4. ESPORTE  A ENGRENAGEM DA FARSA
5. VIDA DIGITAL  FICOU CONFUSO
6. VIDA BRASILEIRA  A NOVA CORRIDA A SERRA PELADA
7. AUTOMVEIS  O FIM DA BARRA DE DIREO
8. SADE  VIDAS REPAGINADAS
9. TECNOLOGIA  A APPLE CORRE ATRS
10. AVIAO  COM JEITINHO, CABE MAIS UM
11. HISTRIA  POR BAIXO E POR CIMA DOS PANOS

1. NEGCIOS  O RISCO DE NO AGIR
Apesar do ambiente hostil para as empresas, o Brasil  um dos pases que mais atraem investimentos no mundo. Mas perde a chance de promover ainda mais os negcios.
ANA LUIZA DALTRO E MARCELO SAKATE

     H nove anos, o Banco Mundial lanou um estudo para avaliar e comparar as condies que os pases oferecem para que as empresas possam fazer negcios. Um dos objetivos do levantamento  o mais profundo diagnstico j produzido at ento sobre o ambiente de negcios no mundo  era servir como guia para que os governos atacassem os entraves burocrticos que impedem as empresas de prosperar. A divulgao da mais recente edio do relatrio Doing Business, na semana passada, revelou de maneira clara como o Brasil pouco avanou no perodo e, mais preocupante, como a escassez de aes da esfera pblica fez o pas ser ultrapassado na corrida global. O Brasil foi classificado como a 130 economia no ranking das que oferecem as melhores condies de negcios, entre 185 naes. Perdeu posies pelo segundo ano seguido  estava em 120 lugar em 2010. Quando os pases foram classificados pela primeira vez, em 2005, ele era o 119 colocado. No h nada que um governo possa fazer para aumentar a quantidade de recursos naturais de uma nao, mas  sempre possvel melhorar a infraestrutura, e muito mais fcil e barato  tirar da frente os entraves tributrios, fiscais e burocrticos  atividade produtiva, diz Rita Ramalho, economista do Banco Mundial, uma das autoras da pesquisa. A dificuldade em simplificar as regras que regem a atividade empresarial destoa do crescimento recente do Brasil, que o alou ao posto de sexta maior economia do mundo.
     A diferena em relao ao dinamismo do setor privado se faz cada vez mais evidente. O pujante mercado domstico, que ganhou 40 milhes de novos consumidores nos ltimos anos, ajuda a entender por que, apesar de tudo, o Brasil se tornou um dos pases mais atraentes aos olhos do investidor estrangeiro. A estimativa  que 60 bilhes de dlares ingressem no pas at o fim do ano, o que deixaria o Brasil atrs apenas de China, Estados Unidos, Hong Kong, Frana e Reino Unido. A maior parcela do dinheiro  destinada a setores ligados ao consumo de produtos ou servios, que so menos expostos s instabilidades institucionais. J o direcionamento do investimento  infraestrutura depende diretamente da estabilidade das regras estabelecidas pelo governo. O fato de menos de 10% do capital externo ter sido direcionado a portos, ferrovias e aeroportos no Brasil fornece um bom ponto de reflexo ao poder pblico.
     O efeito da burocracia  perverso. Explica Carlos Arruda, da Fundao Dom Cabral: O investimento ser necessariamente mais caro, menos produtivo e menos eficiente, a comear pelo fato de que as empresas estrangeiras levam dois ou trs anos apenas tentando entender o Brasil quando decidem vir para c. Desde a primeira edio do estudo, em 2003, a mdia mundial de dias necessrios para abrir uma empresa baixou de cinquenta para trinta. No Brasil, o prazo caiu de 152 para 119 dias  ou seja, ainda so quatro meses de espera. O nmero de procedimentos exigidos continua alto: treze, apenas dois a menos na comparao com 2003. Outro exemplo da falta de ao do governo est na concesso de crdito. Apenas h duas semanas o governo regulamentou a lei do cadastro positivo, mais de um ano depois de sua aprovao. A medida abre caminho para que os bancos cobrem juros mais baixos de empresas que pagam as suas contas em dia. Por no ter feito a regulamentao anteriormente, o Brasil perdeu sete posies no ranking que mede as condies oferecidas a quem toma emprstimos. O pas tem seu pior desempenho em uma rea reconhecida como problemtica h anos (e pouco se faz para alivi-la): o pagamento de impostos, um dos mais altos do mundo. Alm disso, o emaranhado de normas tributrias desperdia 2600 horas por ano das empresas brasileiras, o equivalente a 108 dias.  o tempo que se leva para reunir as informaes exigidas e efetuar os pagamentos. Na Colmbia, so necessrias 203 horas. Enquanto as diversas esferas de governo patinam na implantao de melhorias, outros emergentes servem como exemplo. No ltimo ano, a Polnia aprovou quatro reformas que facilitaram o registro de propriedades, o pagamento de impostos, a aplicao dos contratos e a resoluo de falncias. Entre os Brics, o Brasil s no fica atrs da ndia (132). A China est na 91 posio, e a Rssia, na 112. Evolumos no tamanho do mercado interno e na estabilidade da economia, mas no na parte regulatria. Dada a janela de crescimento que temos hoje, estamos deixando passar a oportunidade de melhorar esse quadro, diz Erik Camarano, diretor-presidente do Movimento Brasil Competitivo. Em estudo recente, o Frum Econmico Mundial diagnosticou que, entre 144 naes avaliadas, em nenhuma outra o peso da regulao governamental  to prejudicial  economia como no Brasil.
     No ltimo ano, o avano mais significativo no pas se deu nas condies para que os contratos assinados sejam cumpridos contando com a fora da lei. Isso ocorreu graas  adoo de um sistema eletrnico para dar incio a processos na Justia de So Paulo. O impacto que aes aparentemente simples, como a modernizao dos tribunais e das juntas comerciais, tm sobre as atividades econmicas  imenso. Nas juntas comerciais informatizadas, por exemplo,  possvel obter alvars de funcionamento pela internet. O problema  que, como o sistema  desmembrado em vrias instncias, basta uma atrasar para que surja um gargalo.  preciso integrar todos os rgos, mas isso teria de ser capitaneado pelo governo federal, diz Camarano. Melhorar o ambiente de negcios no beneficiaria apenas os empreendedores. Estudos comprovam que pases que estimulam a atividade empresarial crescem mais e, portanto, tm mais condies de proporcionar uma qualidade de vida melhor  populao.

NO BRASIL  MAIS DIFCIL
Os melhores pases do mundo para fazer negcios.
1 Singapura
2 Hong Kong
3 Nova Zelndia
4 Estados Unidos
5 Dinamarca
6 Noruega
7 Inglaterra
8 Coreia do Sul
9 Gergia
10 Austrlia
20 Alemanha
24 Japo
37 Chile
39 frica do Sul
43 Peru
44 Espanha
45 Colmbia
48 Mxico
71 Turquia
91 China
112 Rssia
124 Argentina
230 BRASIL
185 Repblica Centro-Africana
Fonte: Banco Mundial

POR QUE O BRASIL VAI MAL
O ranking de ambiente de negcios do Banco Mundial  formado por diferentes indicadores. Em cada um deles, os pases possuem uma nova classificao. Abaixo, a do Brasil

156 PAGAMENTO DE TRIBUTOS
 o critrio em que o Brasil tem o seu pior desempenho. Alm de oneroso, o sistema tributrio desperdia 2600 horas (108 dias) do empresrio brasileiro com o ritual de preparar as informaes, declarar e pagar os impostos e as contribuies.

121 NOVOS NEGCIOS
Abrir uma empresa no pas ainda  um suplcio que dura 119 dias, contra uma mdia de 53 na Amrica Latina e trs em Singapura. O nmero de procedimentos necessrios assusta: so treze, contra nove na regio e cinco nos pases desenvolvidos.

116 EXECUO DE CONTRATOS
Diminuiu o nmero de procedimentos necessrios para uma empresa que quer fazer valer na Justia um contrato assinado. Mas as disputas comerciais ainda demoram dois anos. No Chile, essa espera leva um ano e quatro meses.

109 REGISTRO DE PROPRIEDADES
Os catorze procedimentos exigidos para registrar uma propriedade no Brasil (um a mais do que no ano anterior) representam o dobro da mdia dos pases latinos e caribenhos e quase trs vezes a dos pases da OCDE

104 OBTENO DE CRDITO
O pas no criou nenhum empecilho. Mas perdeu sete posies porque outras naes melhoraram a concesso de emprstimos. No perodo, o Brasil deixou de regulamentar a Lei do Cadastro Positivo, atrasando a vigncia da medida.


2. ESPECIAL  MACONHA FAZ MAL, SIM
O atual liberalismo em torno do consumo da droga est em descompasso com as pesquisas mdicas mais recentes. As sequelas cerebrais so duradouras, sobretudo quando o uso se d na adolescncia.
ADRIANA DIAS LOPES

     Hoje ainda, at o fim do dia, 1 milho de brasileiros tero fumado maconha. A maioria dessas pessoas est plenamente convencida de que a droga no faz mal. Elas conseguem trabalhar, estudar, namorar, dirigir, ler um livro, cuidar dos filhos... A folha seca e as flores de Cannabis so consumidas agora com uma naturalidade tal que nem parece ser um comportamento definido como crime pela lei penal brasileira. O aroma penetrante inconfundvel permeia o ar nas baladas, nas reas de lazer dos condomnios fechados, nos carros, nas imediaes das escolas. A maconha, que em outros tempos j foi chamada de erva maldita, agora ganhou uma aura inocente de produto orgnico e muitos de seus usurios acendem os baseados como se isso fosse parte de um ritual de comunho com a natureza, uma militncia espiritual de sintonia com o cosmo. H uma gigantesca onda de tolerncia com esse vcio. Nos Estados Unidos, dezessete estados j regulamentaram seu uso medicinal. Em novembro, os estados de Washington e Colorado faro um plebiscito sobre a legalizao. No Uruguai, o presidente Jos Mujica pretende estatizar a produo e a distribuio da droga. Em maio deste ano, no Brasil, sob o argumento do direito  liberdade de expresso, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou a marcha da maconha  desde,  claro, que ela no fosse consumida pelos manifestantes. Em um de seus shows, em janeiro, Rita Lee causou tumulto ao interromper a apresentao em Sergipe para interpelar os policiais que tentavam reprimir o fumac na plateia: Este show  meu. No  de vocs. Por que isso? No pode ser por causa de um baseadinho. Cad um baseadinho pra eu fumar aqui?.
     Na contramo da liberalidade oficial, legal e at social com o uso da maconha, a cincia mdica vem produzindo provas cada dia mais eloquentes de que a fumaa da maconha faz muito mal para a sade do usurio crnico  quem fuma no mnimo um cigarro por semana durante um ano. Fumar na adolescncia, ento,  um hbito que pode ter consequncias funestas para o resto da vida da pessoa. Aqueles cartazes das marchas que afirmam que maconha faz menos mal do que lcool e cigarro so fruto de percepes disseminadas por usurios, e no o resultado de pesquisas cientficas incontrastveis. Maconha no faz menos mal do que lcool ou cigarro. Cada um desses vcios agride o organismo a sua maneira, mas, ao contrrio do que ocorre com a maconha, ningum sai em passeata defendendo o alcoolismo ou o tabagismo. Diz um dos mais respeitados estudiosos do assunto, o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de So Paulo: Encarar o uso da maconha com lenincia  uma tese equivocada, arcaica e perigosa.
     Alguns dos argumentos para a legalizao da maconha tm uma lgica perfeita apenas na aparncia. Os defensores da legalizao alegam que, vendida legalmente, a maconha tambm seria cultivada dentro da lei e industrializada. A oferta aumentaria e os preos cairiam. Isso tornaria inteis os traficantes. Eles sumiriam do mapa, levando consigo todo o imenso colar de roubos, assassinatos e corrupo policial que a represso  maconha provoca. O argumento no resiste ao mais simples teste de realidade embutido na pergunta: Quem disse que traficante vende s maconha?. Se a maconha fosse liberada, o trfico de cocana, herona e crack continuaria e todos os problemas sociais decorrentes do poder desse submundo ficariam intactos. Acrescente-se  equao o fato de que a maconha efetivamente faz mal  sade, e a lgica dos defensores de sua legalizao evapora-se no ar ainda mais rapidamente.
     Um dos estudos mais impactantes e recentes sobre os males da maconha foi conduzido por treze reputadas instituies de pesquisa, entre elas as universidade Duke, nos Estados Unidos, e de Otago, na Nova Zelndia. Os pesquisadores acompanharam 1000 voluntrios durante 25 anos. Eles comearam a ser estudados aos 13 anos de idade. Um grupo era composto de fumantes regulares de maconha. Os integrantes do outro grupo no fumavam. Quando os grupos foram comparados, ficou evidente o dano  sade dos adolescentes usurios de maconha que mantiveram o hbito at a idade adulta. Os fumantes tiveram uma queda significativa no desempenho intelectual. Na mdia, os consumidores crnicos de maconha ficavam 8 pontos abaixo dos no fumantes nos testes de Q.I. Os usurios de maconha saram-se mal tambm nos testes de memria, concentrao e raciocnio rpido. Os resultados mostram que  falaciosa a tese de que fumar maconha com frequncia no compromete a cognio. Diz o psiquiatra Laranjeira: Se o usurio crnico acha que est bem, a cincia mostra que ele poderia estar muito melhor sem a droga. A maconha priva a pessoa de atingir todo o potencial de sua capacidade.
     O cineasta paulistano lvaro Zunckeller, de 32 anos, fumou maconha durante duas dcadas, desde a adolescncia, com os amigos, na roda do bar e na sada da escola. No incio, era um cigarro a cada duas semanas. Chegou a trs por dia. Era um viciado, mas para a maioria das pessoas eu era um sujeito sossegado, apenas um pouco desatento, conta ele. Zunckeller  um caso tpico da brasa dormida dos danos da maconha ao crebro confundidos com um comportamento ameno e um estilo de vida mais contemplativo. Apenas 10% dos pacientes internados em clnicas de recuperao de dependentes foram parar ali para tentar se livrar do vcio da maconha. Ainda assim, muitos dos usurios da droga nessas clnicas foram diagnosticados com esquizofrenia, bipolaridade, depresso aguda ou ansiedade  sendo o vcio de maconha apenas um componente do quadro psictico e no seu determinante.
     At pouco tempo atrs vigorou a tese de que a maconha s deflagra transtornos mentais em pessoas com histrico familiar dessas doenas. Essa noo benigna da maconha foi sepultada, entre outros trabalhos, por uma pesquisa feita pelo Instituto de Sade Pblica da Sucia. Um grupo de 50.000 voluntrios foi avaliado durante 35 anos. Eles consumiram maconha na adolescncia. Os suecos demonstraram que o risco de um usurio de maconha sem antecedentes genticos vir a desenvolver esquizofrenia ou depresso  muito mais alto do que o da populao em geral. Entre os usurios de maconha pesquisados, surgiram 3,5 mais casos de esquizofrenia do que na mdia da populao. No que se refere  depresso, o nmero de casos clnicos foi o dobro (veja o quadro nas pginas 94 e 95). Os sinais de perigo da fumaa esto surgindo em toda parte. O bombardeio repetido da maconha sobre o crebro cria uma marca neuronal indelvel, diz Ana Cristina Fraia, psicloga da Clnica Maia Prime, em So Paulo, especializada no tratamento de dependncia qumica.
     A razo bsica pela qual a maconha agride com agudeza o crebro tem razes na evoluo da espcie humana. Nem o lcool, nem a nicotina do tabaco; nem a cocana, a herona ou o crack; nenhuma outra droga encontra tantos receptores prontos para interagir com ela no crebro como a cannabis. Ela imita a ao de compostos naturalmente fabricados pelo organismo, os endocanabinoides. Essas substncias so imprescindveis na comunicao entre os neurnios, as sinapses. A maconha interfere caoticamente nas sinapses, levando ao comprometimento das funes cerebrais. O mais assustador, dada a fama de inofensiva da maconha,  o fato de que, interrompido seu uso, o dano s sinapses permanece muito mais tempo  em muitos casos para sempre, sobretudo quando o consumo crnico comea na adolescncia. Em contraste, os efeitos diretos do lcool e da cocana sobre o crebro se dissipam poucos dias depois de interrompido o consumo.
     Com 224 milhes de usurios em todo o mundo, a maconha  a droga ilcita universalmente mais popular. E seu uso vem crescendo  em 2007, a turma do cigarro de seda tinha metade desse tamanho. Cerca de 60% so adolescentes. Quanto mais precoce for o consumo, maior  o risco de comprometimento cerebral. Dos 12 aos 23 anos, o crebro est em pleno desenvolvimento. Em um processo conhecido como poda neural, o organismo faz uma triagem das conexes que devem ser eliminadas e das que devem ser mantidas para o resto da vida. A ao da maconha nessa fase de reformulao cerebral  catica. Sinapses que deveriam se fortalecer tornam-se dbeis. As que deveriam desaparecer ganham fora.
     Os efeitos psicoativos da maconha so conhecidos desde o ano 2000 antes de Cristo. Seu princpio psicoativo mais atuante  o tetraidrocanabinol (THC). Um outro componente da droga, o canabidiol,  o principal responsvel pelos seus efeitos potencialmente teraputicos. No cmpus de Ribeiro Preto da Universidade de So Paulo, o psiquiatra Jos Alexandre Crippa estuda o efeito do canabidiol no tratamento da fobia social. Trinta e seis voluntrios, metade deles composta de fbicos, ingeriram cpsulas da substncia e, em seguida, tiveram de falar em pblico. Os nveis de ansiedade apresentados pelos portadores do transtorno equivaleram aos registrados pelos participantes sem a fobia. Todos os estudos srios sobre os potenciais usos mdicos da maconha mediram os efeitos de uma nica substncia, selecionada e isolada em laboratrio  e no na inalao da fumaa de um cigarro. Diz Crippa: Os defensores do uso medicinal do cigarro da maconha querem mesmo  obter a liberao da droga. Nos Estados Unidos floresce uma indstria de falsificao de receitas depois da legalizao da erva para o tratamento do glaucoma e no controle da nusea de pacientes submetidos a quimioterapia. Para a alegria dos viciados, mdicos inescrupulosos prescrevem a droga por preos que variam de 100 a 500 dlares.
     Em nenhum pas a maconha  completamente liberada. Um dos mais notoriamente tolerantes  a Holanda, que permite o consumo da erva nos coffee shops, mas, ainda assim, os proprietrios s esto autorizados a vender 5 gramas, o equivalente a um cigarro, para cada cliente. Recentemente, o governo holands proibiu a venda da droga para estrangeiros. Nem sempre foi assim. Na dcada de 70, quando a Holanda descriminalizou a maconha e se tornou uma espcie de Disney libertria, fumava-se em praa pblica. A festa acabou, cedo. Desde ento, o trfico s aumentou. A experincia holandesa  e o recuo das autoridades  derruba um dos mais rgidos pilares da defesa pela liberao: o de que a venda autorizada poria fim ao trfico. No ps.
     No Brasil, desde 2006, com a lei antidrogas sancionada pelo ento presidente Lula, foi estabelecida uma distino na punio de traficantes e usurios. Os bandidos esto sujeitos a at quinze anos de priso. O consumidor no vai para a cadeia. Nesse caso, o juiz decide por uma advertncia verbal, pela prestao de servios comunitrios ou recomenda um tratamento mdico. A lei brasileira no contempla o volume mximo da droga a ser classificado como uso pessoal. Luana Piovani e Isabel Filardis so algumas das celebridades que defendem a tese de que a maioria dos presos com maconha nunca cometeu outros delitos, no tem relao com o crime organizado e portava pequenas quantidades da droga no ato da deteno. Do ponto de vista social, elas esto corretssimas. Do ponto de vista da sade e da aplicao das leis, nem tanto. O advogado criminalista Pedro Lazarini faz restries: Um bandido pode se valer desses limites para nunca ser condenado. O ideal seria que as evidncias cientficas incontestveis sobre os ruinosos efeitos da maconha para a sade sejam levadas em conta. Todos ganham com isso.

AS DESCOBERTAS RECENTES SOBRE A AO DA MACONHA NO CREBRO...

SINAPSES  At vinte anos atrs, o efeito da maconha no crebro era desconhecido. Graas aos avanos nos exames de imagem, capazes de flagrar o crebro em pleno funcionamento, foi possvel estabelecer que a maconha interfere na funo dos endocanabinoides, substncias cerebrais liberadas naturalmente quando as conexes entre os neurnios (sinapses) so ativadas. Tais compostos tm a funo de regular as sinapses, de forma a preservar a comunicao entre os neurnios. As ltimas pesquisas sobre endocanabinoides, conduzidas pela Universidade Hebraica, em Jerusalm, revelaram que esses compostos esto espalhados por todo o crebro, o que explica a ao difusa da maconha.

RECEPTORES  A maconha ocupa o lugar dos endocanabinoides nos receptores desses compostos nos neurnios. Receptores so estruturas na superfcie dos neurnios que servem de porta de entrada para os endocanabinoides. Dessa forma, a comunicao neural (sinapse) se torna ineficiente. Eventualmente, pode haver at mesmo a perda da funo dos neurnios. Em estudos recentes, descobriu-se que os receptores submetidos  ao da droga se comportam de formas diferentes. Alguns reagem a quantidades pequenas de maconha; outros, a grandes volumes.

VULNERABILIDADE  A afinidade qumica da maconha com os receptores endocanabinoides  tamanha que basta um ano de uso contnuo (pelo menos uma vez por semana) para que os danos sinpticos possam vir a se tornar definitivos, mesmo com a suspenso da droga.  Esse prejuzo ocorre, sobretudo, durante a adolescncia, quando o crebro est em transformao e os mecanismos neurais esto mais vulnerveis. Trabalhos recentes detalhando a afinidade qumica da maconha, financiados pelo Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, nos Estados Unidos, mostraram que a semelhana com os endocanabinoides  maior do que se imaginava, ratificando o efeito danoso ao crebro.

...E SEU IMPACTO NA SADE E NO COMPORTAMENTO
Os riscos de doenas psiquitricas associadas ao uso crnico da maconha, em comparao com quem no usa a droga. Por uso crnico, entende-se o consumo de um cigarro de maconha pelo menos uma vez por semana durante um ano.
Fontes: Ronaldo Laranjeira, psiquiatra da Universidade Federal de So Paulo, Universidade Duke, nos Estados Unidos, Instituto de Sade Pblica da Sucia e Kings College, de Londres.

O risco de doenas em relao a quem usa a droga:
DEPRESSO  2 vezes maior  o risco de desenvolvimento da doena.
TRANSTORNO BIPOLAR  2 vezes maior  a probabilidade de manifestao do distrbio.
ESQUIZOFRENIA  3,5 vezes maior  a probabilidade de incidncia do problema.
TRANSTORNO DE ANSIEDADE  5 vezes maior  o risco de ocorrncia do distrbio.

Prejuzos dirios: Todos os usurios, sem exceo, sofrem de pelo menos um dos sintomas abaixo
MEMRIA: 60% dos usurios tm dificuldade com lembranas, sobretudo as mais recentes.
CONCENTRAO: 40% dos usurios tm dificuldade de ler textos longos e mais complexos.
FUNES EXECUTIVAS: 40% dos usurios tm dificuldades de planejar e executar tarefas de forma organizada e rpida.
VIDA SOCIAL: 40% vicem isolados socialmente, limitando a convivncia com pessoas ao ambiente de trabalho.
INTELIGNCIA: 8 pontos a menos de QI  a perda registrada pelos usurios da droga.
VIDA PROFISSIONAL: 35% ocupam cargos alm da sua capacidade devido ao baixo rendimento e  incapacidade de mudar sua situao.

AS REAS CEREBRAIS AFETADAS PELA DROGA
1- CRTEZ, a rea da cognio. Efeito da maconha: falta de concentrao, dificuldade de raciocnio e problemas de comunicao.
2- HIPOTLAMO, rea da sensao de saciedade. Efeito da maconha: aumento do apetite.
3- HIPOCAMPO, rea da memria. Efeito da maconha: perda das lembranas, sobretudo as recentes e de longa durao.
4- NCLEOS DA BASE E CEREBELO, reas dos movimentos do corpo. Efeito da maconha: falta de coordenao motora e desequilbrio.
5- AMGDALA, rea do controle das emoes. Efeito da maconha: aumento ou diminuio da ansiedade.
Fontes: os psiquiatras Ronaldo Laranjeira, da universidade Federal de So Paulo (Unifesp), Jos Alexandre de Souza Crippa, da Universidade de So Paulo, cmpus de Ribeiro Preto, e Valentim Gentil, do Instituto psiquitrico do Hospital das Clnicas, e a psicloga Clarice Madruga, da Unifesp.

A ERVA MALDITA
Os malefcios da maconha podem ser to ou mais graves quando comparados aos danos causados pelo lcool, cigarro e at cocana.
Fonte: Ronaldo laranjeira, psiquiatra da Universidade Federal de So Paulo.

CIGARRO
O que se diz: Por conter muitas substncias qumicas extremamente txicas, cancergenas, inclusive, o tabaco seria mais danoso do que a maconha, uma erva consumida em sua forma natural.
O que se sabe: Devido s tragadas longas, sem filtro, quem fuma maconha consome quatro vezes mais alcatro do que se fumasse um cigarro de tabaco e cinco vezes mais monxido de carbono, duas substncias diretamente associadas ao cncer de pulmo.

LCOOL
O que se diz: As bebidas alcolicas seriam mais prejudiciais do que a maconha porque tm ao sistmica no organismo, agredindo, portanto, todos os rgos na mesma intensidade.
O que se sabe: Em excesso, o lcool compromete sobretudo o fgado e o crebro. Na maioria dos casos, com a suspenso da bebida,  possvel a recuperao total do fgado. Quanto ao crebro, o lcool deixa as membranas dos neurnios mais frgeis. Mas elas tm alta capacidade de regenerao, com a interrupo do consumo.

COCANA
O que se diz: Diferentemente da maconha, a cocana oferece alto risco de dependncia.
O que se sabe: Quando a maconha  utilizada na adolescncia, o risco de dependncia  o mesmo da cocana, de 15%.

ATUALMENTE, PEGA MAL SER CONTRA A LIBERAO DA MACONHA
Aos 66 anos, o paulistano Valentim Gentil Filho  um dos mais renomados psiquiatras do pas. Com doutorado em psicofarmacologia clnica pela Universidade de Londres, ocupou o cargo de presidente do conselho diretor do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clnicas durante doze anos  sem nunca ter abandonado a prtica clnica. Tamanha experincia o levou a defender a condenao da maconha. Trata-se da nica droga a interferir nas funes cerebrais de forma a causar psicoses irreversveis, disse a VEJA. Se fosse para escolher uma nica droga a ser banida, seria a maconha.

Nos ltimos dois anos, a ideia da descriminalizao para o usurio da maconha ganhou fora no pas. Recentemente, um grupo de juristas apresentou a proposta no Senado com o objetivo de a medida ser adotada na reforma do Cdigo Penal. O que o senhor acha disso? 
O trfico deve adorar isso. Em hiptese alguma d para liberar geral. Estamos falando de substncias altamente txicas. Um dos argumentos pr-maconha  que a legalizao reduziria o consumo da droga. As pesquisas mostram, no entanto, que, quando o consumo  referendado e a droga  considerada segura, o adolescente experimenta mais. A histria de que os jovens se sentem estimulados a usar drogas por serem proibidas se aplica apenas a uma minoria.

H muitos mdicos, inclusive da sua especialidade, que no pensam como o senhor. 
No  simptico expressar uma opinio contrria  cultura da anticaretice que impera no pas em relao  maconha. Atualmente, pega mal ser contra a liberao da maconha. At mesmo entre os mdicos. O fato de a maconha no ser to agressiva como outras drogas quando usada nas primeiras vezes contribui para isso. Mas ou esses mdicos esto muito desinformados ou eles tm acesso a fontes cientficas bem diferentes das minhas. Se fosse obrigado a escolher uma nica droga a ser banida, seria a maconha, sem sombra de dvida.

De que forma a maconha seria mais prejudicial do que as outras drogas?
Drogas como herona, cocana e crack so devastadoras porque podem matar a curto ou curtssimo prazo. Alm disso,  difcil se livrar dessas substncias pelo alto grau de dependncia que apresentam. Os danos que elas causam ao crebro, porm, cessam quando deixam de ser usadas. Ou seja, passado o perodo de abstinncia, as funes do organismo se restabelecem. Com a maconha a histria  ou outra.  a nica droga a interferir nas funes cerebrais de forma a causar psicoses definitivas, mesmo quando seu uso  interrompido.

Qualquer usurio est suscetvel a tais danos? 
Sim, mas em graus diferentes, a depender da frequncia de consumo e da tolerncia do organismo do usurio.  uma roleta-russa. O consumidor espordico, aquele que fuma s vezes, est sujeito a sofrer estados psicticos transitrios, como alucinao e paranoia, ataques de pnico e ansiedade. O efeito permanente nas conexes nervosas se d no uso crnico. A, sim, absolutamente todos sofrem algum prejuzo.

O astrnomo americano Carl Sagan (1934-1996) foi usurio da maconha e um defensor ferrenho da droga. Ainda assim, deixou o legado de uma carreira brilhante. Ele teria sido uma exceo?
Sagan foi um gnio, e sou f dele. Mas penso que, se no tivesse usado tanta maconha, ele teria sido um profissional ainda mais brilhante e mais responsvel. Sagan tinha algumas ideias estapafrdias para um astrnomo. Por exemplo: ele se tornou um dos lderes do Seti (Search for Extra-Terrestrial Intelligence  Busca por Inteligncia Extraterrestre), que investiu centenas de milhes de dlares na busca de sinais aliengenas ou provas de alguma civilizao extraterrestre. Repito aqui: no h excees para os danos causados pela maconha.

 possvel identificar os adolescentes mais propensos a usar a droga? 
H entre eles um trao de personalidade conhecido como busca de novidade (novelty seeking) ou busca de sensaes (sensation seeking). Pessoas com esse perfil se expem mais a riscos, tm menor controle sobre suas emoes, so mais impulsivas e tm maior probabilidade de se tornarem dependentes da maconha. No extremo oposto, alguns jovens introvertidos e ansiosos tambm ficam vulnerveis, dependendo do ambiente. Famlias estruturadas ajudam, e a presena dos pais monitorando o comportamento  uma proteo importante, mas no  garantia contra o uso.

Qual  a sua opinio sobre o uso medicinal da maconha? 
Acredito em benefcios de determinadas substncias extradas da planta que d origem  maconha, a Cannabis. Isso  diferente de preconizar o uso teraputico da maconha fumada, que tem muitos compostos nocivos ao organismo, alm da fumaa quente retida no pulmo, com potencial cancergeno. No acredito nem mesmo nas verses purificadas da planta, vendidas em alguns estados americanos e em coffee shops europeus. No h tecnologia capaz de certificar que um baseado tenha apenas substncias no txicas da planta. Alis, a venda nesses lugares  uma baguna. O filho de um amigo conseguiu comprar maconha medicinal na Califrnia porque no mesmo lugar onde comprou a droga comprou tambm a receita mdica. Uma coisa tem de ficar clara: a agncia de sade oficial americana (FDA) no valida o consumo da maconha ou de outros preparados da Cannabis para fins medicinais. Alguns estados liberam por meio de seus governos.

O senhor j fumou maconha? 
Nunca. E jamais tive vontade.

Seus filhos j fumaram?
No que eu saiba.

UMA VIDA NORMAL NA APARNCIA
Fumei maconha durante vinte anos. Experimentei na adolescncia e adorei. Em trs anos, passei de um cigarro a cada duas semanas para trs baseados por dia. Perdi um emprego, perdi duas namoradas e me formei com dez anos de atraso. Na faculdade, s pensava na hora de ir para o barzinho fumar maconha. Quando estava em casa, passava o dia dormindo. Era um viciado, mas levava uma vida relativamente normal. Esse  o grande perigo da maconha.  H sete meses comecei um tratamento clnico contra a dependncia. Desde ento, nunca mais fumei. Hoje, tenho dificuldade de me concentrar na leitura. No consigo ler mais de trs, quatro pginas. Sinto saudade da sensao que causa a maconha, claro. Mas no quero mais que ela domine a minha vida.
lvaro Zunckeller, 32 anos cineasta

PORTA DE ENTRADA PARA OUTRAS DROGAS
Fumei meu primeiro cigarro de maconha aos 19 anos, com um primo, por curiosidade juvenil. De imediato, senti um profundo relaxamento. Eu, que sempre fui muito agitada, adorei a sensao. Passei a fumar com frequncia. Aos pouco, a maconha foi invadindo a minha existncia. Eu vivia letrgica, mas achava tudo absolutamente normal. A maconha foi a porta de entrada para outras drogas. A certa altura, quis experimentar uma sensao mais forte. A maconha havia perdido a graa. Aos 27 anos, cheirei cocana. Aos 35, mudei para o crack. Virei um rato. Passei por trs internaes e me salvei. Estou h onze anos sem usar drogas.
Vldia Ofenheim, 52 anos comerciante

BIPOLARIDADE DEFLAGRADA PELA DROGA
Comprar e consumir maconha  a coisa mais fcil do mundo. A droga  extremamente barata e ningum faz cara feia quando percebe que voc est fumando. As pessoas esto acostumadas. Fumei dos 14 aos 20 anos. At comear a fumar, eu era tima aluna  fui alfabetizada em ingls e ainda falava francs e espanhol com fluncia. Meu raciocnio era rpido e eu era responsvel em casa. Por causa da droga, passei a ter falhas srias de memria. Um dia minha me descobriu que eu fumava e me levou ao mdico. L, fui diagnosticada com transtorno bipolar, deflagrado pelo uso da maconha. Estou h quatro anos limpa. No foi fcil. Tive duas recadas. Mas estou aqui. Pronta para recomear.
Milena Gertner, 24 anos, fotgrafa, com a me Sulamita Kramarski


3. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Maliana Amaro e Maria Leoni

E TEM MAIS: ELA  ENGRAADA
Antes de estrear na TV, MARIANA RIOS, 27, a mimada Drica em Salve Jorge, teve uma trajetria artstica acidentada. Comecei a cantar com 5 anos e, aos 10, minha me j me levava para cantar em barzinhos, diz Mariana. Depois, tentou a carreira de modelo. S levei no. Diziam que minha beleza era muito comum. Uma caracterstica inesperada floresceu no teatro. Ela  to engraada que eu tinha de me esconder nos ensaios por causa das crises de riso, conta Oswaldo Montenegro, seu primeiro diretor. Di Ferrero, cantor do NXZero e noivo da atriz, contribui: Ela j fez um vestido de festa com a cortina de casa. Na revista NOVA, Mariana descortina outros talentos.

A OUTRA QUESTO PALESTINA
Os fundamentalistas do Hamas, o grupo no poder na Faixa de Gaza, no deixam muulmanas usar mangas transparentes e apenas um turbantezinho na cabea. Exceto no caso da SHEIKA MOZAH. Ela  a elegantssima mulher do poderoso emir do Catar, que banca uma conta de 400 milhes de dlares em ajuda para Gaza, e acompanhou o marido numa visita indita ao territrio isolado na divisa com Israel por causa dos atentados terroristas. Mozah combinou saltos altssimos e bolsa Chanel com uma tradicional tnica bordada das palestinas, e AMAL HANIEH, mulher do lder do Hamas, envolta nos trajes mandatrios, ficou mais obscurecida ainda.

TUDO COR-DE-ROSA
Ao p do altar, todo homem fala que sua noiva est linda. Mas, quando JUSTIN TIMBERLAKE diz que JESSICA BIEL, envolta numa vaporosa criao rosa de Giambattista Valli, foi a coisa mais linda que j viu, a frase ganha mais peso. Afinal, ele tem como parmetro ex-namoradas chamadas Britney Spears, Cameron Diaz e Scarlett Johansson. Timberlake  um caso de ator infantil que multiplicou a fama e a fortuna. Tem patrimnio avaliado em 70 milhes de dlares, alimentado por uma linha de roupas de administrao prpria, uma gravadora e dois restaurantes. Gastou quase 10% disso na festa de casamento na Puglia, no calcanhar da Itlia. Parece que valeu.

UM TUFO EM SUAS VIDAS
Qual  o tempo aceitvel para acabar um relacionamento e assumir publica- mente outro sem magoar demais os parceiros substitudos? Como incendiou igualmente o pblico e os bastidores, a encerrada Avenida Brasil trouxe algumas respostas. Em um ms e pouco, DEBORA NASCIMENTO e JOS LORETO anunciaram as respectivas separaes e passaram a no se incomodar mais em ser vistos juntos. Para a prxima novela das 6, os dois j esto confirmados. As gravaes so na Praia de Pipa. Vamos aproveitar e fugir um pouquinho, diz Loreto. DBORA FALABELLA e MURILO BENCIO esperaram o fim da novela para sair de um fumegante armrio. J planejam as apresentaes para a famlia. Estou feliz que eles assumiram o namoro, diz Maria Olympia Falabella, a futura sogra de Tufo.

HISTRIA DE LOBISOMEM
Tem meninas uivando s de pensar que ficaro sem o homem-lobo Jacob, na vida real TAYLOR LAUTNER, 20. Ele veio ao Rio de Janeiro para o lanamento do ltimo filme da saga Crepsculo.  lindo mesmo, profissional e at irnico. E ainda voa de verdade. Confira
FS ALUCINADAS TIRAM PEDAO? Elas fazem coisas doidas, e eu adoro. Certa vez, em So Paulo, estava na sala de reunies de um hotel e, de repente. apareceram seguranas correndo para trancar a porta. Umas 3000 garotas tinham invadido o hotel. Ficamos trancados 45 minutos, esperando a polcia. Nunca vou esquecer o Brasil.
QUAL SUA PRINCIPAL HABILIDADE NO CARAT? Pular. Minha linha  extreme martial arts, uma mistura de carat, ginstica e acrobacia. Fao desde os 6 anos. Basicamente, eu posso voar. 
EXPLIQUE, POR FAVOR. Nunca usamos cabos de ao nas cenas em que Jacob salta e vira lobo. A equipe no sabia que eu podia voar e, quando dei um salto enorme, ficaram todos impressionados.
QUAL FOI SEU GOLPE CERTEIRO? Em Lua Nova, a segunda parte da saga. Quando estreei em Crepsculo, tinha 16 anos e era um molequinho magro e pequeno. Malhei bastante e, em Lua Nova, minha participao cresceu muito.
VOC SE V EM ALGUM FILME EM QUE USE CAMISA? A coisa de que eu menos gosto  ficar sem camisa o tempo todo. Foi estranho contracenar com todo mundo vestido para o inverno horrvel do filme e s eu de jeans rasgado e seminu. Acho que Kristen Sewart e Robert Pattinson (os vampiros do filme) deveriam ter ficado seminus comigo.


4. ESPORTE  A ENGRENAGEM DA FARSA
O ciclista americano Lance Armstrong, sobrevivente de um cncer, era um heri  hoje no passa de um ladro de bicicleta.
ALEXANDRE SALVADOR

     Sete vezes campeo da mtica Volta da Frana, o ciclista americano Lance Armstrong, de 41 anos, tem hoje um nico ttulo, o de maior enganador da histria do esporte. Na semana passada, a Unio Ciclstica Internacional acatou a deciso da Agncia Americana Antidoping (Usada) e, alm de subtrair as conquistas de Armstrong, tratou de bani-lo de qualquer atividade esportiva profissional. H duas semanas ele tinha perdido o patrocnio da Nike. Deixou tambm o comando de sua fundao, a Livestrong (aquela das pulseirinhas amarelas), a fachada pela qual ele exibia a tenacidade de um sobrevivente de cncer nos testculos com metstase no crebro, pulmes e abdmen. Estima-se em 16 milhes de euros o tamanho das perdas do ex-campeo, que ficar eternizado como um mentiroso que fazia do cinismo a ncora de uma arrogncia inigualvel.
     Sabe-se hoje, depois da leitura das 200 pginas da investigao da Usada, que tudo na vida adulta de Armstrong foi lorota,  exceo do cncer. Seus pdios foram alcanados por meio de um esquema macio de doping em equipe. Ele era o chefe de uma mfia tenebrosa, uma engrenagem de contrafao azeitada por conhecimentos detalhados do funcionamento do doping no organismo (veja o quadro). O homem firme como uma rocha, atleta de compleio fsica privilegiada  que certamente venceria seus adversrios se todos competissem, utopicamente, de modo limpo , no passa, a partir de agora, de um ladro de bicicleta.

LANCE ARMSTRONG - Alm de usar substncias proibidas, forneceu a seus companheiros de equipe ampolas de EPO e ofereceu sua casa para que os colegas armazenassem as bolsas com o sangue que seria reintroduzido no organismo. Foi o arquiteto do esquema de contrafao.

A MFIA DAS DROGAS
Michele Ferrari  O mdico italiano foi o criador do extenso programa de doping que beneficiou dezenas de ciclistas entre os anos 1990 e 2000. Comeou a trabalhar com Armstrong em 1995. Forava os membros da equipe do heptacampeo da Volta da Frana a participar da trapaa.
Equipe mdica  os profissionais aplicavam injees de hormnios nos ciclistas e monitoravam a transfuso de sangue. Mascaravam o doping antes que os atletas fossem submetidos a testes.
Equipe tcnica  Ao lado dos mdicos, controlava a intensidade da enganao qumica, para mant-la abaixo do limite detectvel.
Ciclistas  aceitaram receber diariamente doses de substncias dopantes. Eram os responsveis pela manuteno do esquema, alertando sobre a chegada de oficiais das agncias de controle de doping. Uma das estrelas era Tyler Hamilton, que depois se arrependeria da tramoia.
Motomam  Embora sua identidade no tenha sido revelada, foi o responsvel por entregar ampolas de EPO a membros da equipe de Armstrong em diversas etapas da Volta da Frana de 1999. Tyler Hamilton
Massagista  Emma OReilly calou-se quando Armstrong forjou o uso teraputico  e evidentemente ilegal  de corticoides. Emprestou maquiagem ao ciclista para que ele escondesse marcas de agulha no brao.

AS TRS MODALIDADES DE DOPING
Em todos os sete ttulos da Volta da Frana, o ciclista americano fez uso de prticas consideradas ilegais pelas regras do esporte.

INJEO DE EPO (ERITROPOIETINA)
O que : Hormnio naturalmente produzido nas glndulas suprarrenais. A injeo da verso sinttica de EPO induz a medula ssea a fabricar mais glbulos vermelhos e liber-los na corrente sangunea. Mais oxignio no sangue incrementa a produo de energia aerbica, ideal para o desempenho de ciclistas de longa distncia. 
O efeito obtido: o hematcrito, razo entre a quantidade de hemcias e o volume total de sangue, sobe de 40% para at 60%. Quanto maior a quantidade de glbulos vermelhos, maior tambm  a capacidade de transporte de oxignio pelo sangue. A melhora de performance pode chegar a 7%.
Danos para o corpo: Conforme a concentrao de glbulos vermelhos aumenta, elevam-se tambm a presso arterial e a viscosidade do sangue, o que dificulta sua passagem pelo corpo. Em caso extremo, pode ocorrer edema pulmonar ou rompimento de um vaso.

TRANFUSO DE SANGUE
O que : Trata-se de injeo de sangue no organismo. No caso da trupe de Armstrong, 500 mililitros de sangue eram retirados dos ciclistas e armazenados em bolsas refrigeradas. Na vspera de competio, os atletas introduziam novamente o sangue no corpo. Com isso, tambm aumentavam a oxigenao.
O efeito obtido: Tambm aumenta a quantidade de hemcias no sangue, o que beneficia o transporte de oxignio pelo organismo. Por se tratar da injeo direta de glbulos vermelhos, o efeito no corpo do atleta varia de 5% a 7%, mas age ainda mais rpido que o EPO.
Danos para o corpo: O organismo tende a repor a quantidade de sangue previamente retirada. Por isso, quando ela  reintroduzida, tambm provoca aumento na presso arterial, com os mesmos riscos do uso de EPO.

APLICAO DE TESTOSTERONA
O que : Hormnio masculino produzido naturalmente nos testculos e nos rins. Sua verso sinttica  conhecida como esteroide anabolizante, muito utilizada por velocistas e levantadores de peso.
O efeito obtido: Induz o crescimento da massa muscular, acelera a contrao dos msculos e melhora a capacidade de recuperao do organismo depois de longo perodo de esforo.
Danos para o corpo: Pode diminuir a produo natural de testosterona no organismo. Tambm sobrecarrega o fgado, o que pode ocasionar hepatite e at cncer no rgo. Piora o perfil de colesterol do indivduo, e isso aumenta o risco de arritmia cardaca ou infarto.

Fontes: Turbio Leite de Barros e Paulo Zogaib, fisiologistas da Universidade federal de So Paulo (Unifesp) e consultores de medicina esportiva; Agncia Americana Antidoping (Usada).

OS TRUQUES PARA ESCAPAR DO ANTIDOPING
Em muitos casos, a equipe de Lance Armstrong simplesmente fugia dos agentes de controle  em outros, usava a cincia a favor da enganao.
Mtodos e substncias indetectveis - De 1998 a 2005, no havia tecnologia para aferir o uso de hormnios de crescimento ou de transfuso de sangue. Alm disso, o uso de EPO s se tornou detectvel a partir de 2000. Tambm havia dificuldade de cravar o uso de esteroides se ingeridos em pequenas doses escalonadas.
Controle das doses - Com a injeo de EPO diretamente nas veias, em pores menores (e no de maneira subcutnea, como de praxe), seria muito difcil detectar a trapaa. Quando o nvel de glbulos vermelhos estava to alto que poderia acusar o doping, os mdicos injetavam soro fisiolgico nos ciclistas para diluir o sangue.


5. VIDA DIGITAL  FICOU CONFUSO
O Windows 8  uma evoluo bem-vinda. Pena que se atrapalhe ao misturar verses para tela sensvel e para teclado.

     A semana passada pode ter sido decisiva para o futuro da Microsoft. A empresa fundada h 37 anos por Bill Gates sinalizou sua entrada na indstria do hardware com o lanamento de seu primeiro computador, o Surface, que  uma mescla de tablet e notebook. Tambm reinventou o seu principal produto, o Windows. Esse sistema operacional  a porta de entrada em 80% dos aparelhos, incluindo na conta os dispositivos mveis. A porcentagem atinge espantosos 90%, se o clculo considerar apenas os computadores pessoais, os PCs e Macs. A nova verso, com o nome de Windows 8,  o primeiro sistema operacional projetado para funcionar igualmente em tablets, smartphones e PCs. Quem se apressar em atualizar seu Windows levar um susto. Trata-se de uma reformulao total que exige reaprendizado.
     O Windows 8 tem aparncia agradvel, mas a navegao est longe de ser intuitiva. O que complica  a tentativa de fazer coexistirem dois mundos dentro de um s sistema operacional. O Windows 8 foi criado para uso com tela sensvel ao toque, mas tambm precisou ser adaptado para funcionar com mouse e teclado. Individualmente, cada parte funciona. A pgina inicial  um mosaico de aplicativos, como em um iPad, e a navegao por toque  fluida. Mas, se o monitor for convencional, comandar com teclado  um martrio. A alternativa  mudar para uma rea de trabalho similar  do Windows tradicional. A se navega bem com teclado e mouse, mas no com toque. As duas partes se misturam sem se comunicar bem.
     O Windows surgiu em 1985 e levou dez anos para se livrar do arcaico MS-DOS, a partir do lanamento do Windows 95. De L para c, as mudanas ocorreram em pequenas doses, a ponto de os usurios no terem pressa em atualizar as verses. Hoje, eles se dividem entre o Windows 7 (lanado em 2009) e o XP (de 2001), com 40% do mercado para cada um. Essa marcha lenta reflete a crise de inovao pela qual passa a Microsoft. A empresa, que j foi a mais valiosa do mundo, no soube acompanhar os novos produtos (smartphones, tablets, tocadores de msica) e ficou 200 bilhes de dlares menor desde 1999. Hoje vale metade da nova lder, a Apple. O Surface e o Windows 8 so as peas da estratgia para reerguer o dinossauro. Steve Ballmer, CEO da Microsoft, explica a guinada: Tentamos reinventar o mundo com o Windows 8.

O QUE COMPLICA O WINDOWS 8
 A existncia de duas telas iniciais, a rea de trabalho convencional e a nova, com um mosaico de aplicativos.
 No fica claro como se deve acessar cada programa, se pela rea de trabalho ou pelo mosaico.
 A rea de trabalho convencional depende do uso de mouse e teclado. J o mosaico funciona melhor com PCs com tela sensvel ao toque  quem tem vai ficar alternando as duas formas de navegao.
 O sumio do tradicional menu Iniciar, o que dificulta a busca por arquivos e programas.

FILIPE VILICIC


6. VIDA BRASILEIRA  A NOVA CORRIDA A SERRA PELADA
No local onde existiu o maior garimpo do mundo, ainda h muito ouro. Em 2013, esse tesouro comear a ser explorado de forma organizada e com o uso de tecnologia moderna.
LEONARDO COUTINHO, DE CURIONPOLIS.

     Vinte e cinco anos depois do fechamento do maior garimpo do mundo, Serra Pelada voltar a produzir ouro. No lugar dos 100.000 homens de todas as partes do Brasil que se amontoaram nos terraos enlameados de uma cratera cavada no sul do Par em busca do metal precioso, em condies precrias, haver mquinas modernas operadas por funcionrios com carteira assinada e protegidos por equipamentos de segurana. Em vez de garimpeiros agachados em frente a uma fogueirinha fervendo mercrio em uma panela para separar as partculas de ouro da terra, sero utilizados complexos processos no poluentes de decantao, flotao e fundio para produzir barras de ouro de 25 quilos com 80% de pureza.
     Nas prximas semanas, a mineradora canadense Colossus Minerais, que est investindo 700 milhes de reais em Serra Pelada, concluir a medio da reserva ainda intocada, que escapou s escavaes artesanais dos garimpeiros na dcada de 80. Em 2010, quando a cooperativa dos garimpeiros ganhou do governo federal o direito de retomar a explorao de seu tesouro, os tcnicos do Ministrio de Minas e Energia estimaram em 50 toneladas a quantidade de ouro ainda existente no local. Se o clculo se confirmar, ser mais do que se conseguiu extrair nos sete anos em que o garimpo funcionou, entre 1980 e 1987 (40 toneladas). Os velhos mtodos, contudo, no servem mais. O ouro remanescente encontra-se misturado em uma camada de argila, a 200 metros de profundidade, que se estende a sudoeste da cratera aberta nos anos 80. Os garimpeiros no sabiam disso e, depois de retirar o ouro que estava mais prximo  superfcie. continuaram cavando na vertical. Em vo. Eles j no conseguiam encontrar uma quantidade significativa do minrio e acabaram atingindo um lenol fretico, que comeou a inundar o garimpo. O governo, ento, mandou interromper as atividades no local.
     Para retomar a explorao, a cooperativa teve de criar a Serra Pelada Companhia de Desenvolvimento Mineral, uma joint venture com a empresa canadense. Os 38.000 garimpeiros cooperados no precisaro fazer nada alm de dividir entre si 25% dos lucros da operao. Na Vila de Serra Pelada, situada no municpio de Curionpolis, h uma gameleira de 15 metros de altura que serve de ponto de encontro de homens que h trinta anos sonham com a reabertura do seu Eldorado. A rvore ganhou o apelido de Pau da Mentira, por causa das histrias improvveis contadas  sua sombra, mas bem que agora poderia ter seu nome mudado para Pau da Esperana. Jos Mariano dos Santos, de 58 anos, acredita que a nova fase de Serra Pelada poder garantir a ele e seus colegas uma renda mensal de 20.000 reais. No passado, Santos chegou a acumular 411 quilos de ouro, o equivalente a 47 milhes de reais em valores atuais, o que fez dele o segundo homem mais rico do garimpo. Esbanjou tudo em festas, em viagens extravagantes e em investimentos desastrados. Hoje ele sobrevive do salrio mnimo que recebe como aposentadoria.
     Os representantes da mineradora se preocupam com as expectativas dos seus scios brasileiros. No temos dvida de que esta mina tem potencial para se tornar uma das mais produtivas do mundo, mas infelizmente no ser capaz de enriquecer esses 38.000 homens, diz a canadense Ann Wilkinson, vice-presidente da Colossus. Para atender  remunerao sonhada pelos garimpeiros, a mineradora teria de atingir uma mdia de extrao anual dez vezes a das principais minas do mundo. Isso  impossvel, mesmo com a alta concentrao de ouro que os tcnicos esto encontrando em Serra Pelada. A mdia confirmada at agora  de 20 gramas de ouro por tonelada de terra. Em comparao, a mdia na maior mina em operao no Brasil, em Paracatu, em Minas Gerais,  de 0,45 grama por tonelada. Durante a fase de prospeco, os gelogos descobriram que as imagens de enormes pepitas de ouro, que ajudaram a fomentar a corrida a Serra Pelada nos anos 80, no se repetiro. Essas pedras j eram raras naquele tempo, e, agora, mais ainda. O ouro em p que sobrou est diludo no solo argiloso. Para que se chegue aos pontos de maior concentrao do metal, foi construdo um tnel de 1600 metros de extenso e 5 metros de largura. Mesmo que haja alguma pepita em meio s 150 toneladas de terra que sero recolhidas diariamente por pequenas escavadeiras, ela acabar triturada no processo mecnico de separao do metal.
     A dificuldade tcnica e o alto custo da extrao na nova Serra Pelada so compensados de duas formas. Primeiro, o ouro no  o nico tesouro do local. H quantidades significativas de platina e paldio, metais de grande valor industrial e para a confeco de joias. S so conhecidas outras duas minas no mundo onde o ouro vem acompanhado desses metais, diz o presidente da Colossus, o canadense Claudio Mancuso. A segunda compensao  a crescente demanda pelo ouro, motivada pela desvalorizao do dlar e pela instabilidade nas bolsas de valores. No ano passado, o metal acumulou uma alta de 16%, enquanto o ndice Bovespa caiu na mesma proporo, e os bancos centrais compraram 440 toneladas de ouro, quase seis vezes mais do que em 2010. O aumento da procura fez o preo da ona troy (equivalente a 31 gramas) saltar de 300 dlares, em 1998, para 1710 dlares, na semana passada. Da preferncia dos investidores do sculo XXI  febre que levou milhares de brasileiros a abandonar a famlia para tentar a sorte em Serra Pelada nos anos 80, o ouro  desejado por uma razo simples. Ele  raro. Todo o ouro j extrado no planeta, 160.000 toneladas, caberia em apenas duas piscinas olmpicas.


7. AUTOMVEIS  O FIM DA BARRA DE DIREO
Sistema que vai equipar modelos da Nissan, inspirado nos avies, usa a eletrnica para controlar a direo do veculo.

     H tempos os grandes avies comerciais e os caas trocaram os controles mecnicos de voo por sistemas eletrnicos. Condutes e cabos de ao foram substitudos por um sistema de computadores chamado de fly-by-wire (voo por fios), em que sensores captam a presso que o comandante exerce sobre o manche, os manetes e os pedais e a transmitem digitalmente para as partes mveis da aeronave, aquelas que lhe do propulso e direo. A mesma tecnologia inspirou a fbrica de automveis japonesa Nissan a desenvolver um sistema de direo chamado de steer-by-wire (direo por fio), que comear a equipar alguns de seus modelos a partir do ano que vem. Na prtica, o novo sistema pode significar, num futuro prximo, o fim da coluna e da barra de direo, o mecanismo pelo qual se conduzem os automveis desde que eles foram inventados.
     O sistema da Nissan usa, em lugar das conexes mecnicas entre o volante e o eixo dianteiro, trs pequenos computadores instalados no motor. Cada movimento do volante  transformado em sinais digitais pelos processadores. A seguir, os sinais so enviados por cabos a dispositivos nas rodas, responsveis por esterar os pneus. Se um dos processadores falhar, outro entrar em operao. E, em caso de pane do circuito, o sistema mecnico ser acionado  coluna e braos de direo foram mantidos para emergncias. A direo eletrnica apresenta uma srie de vantagens em relao  convencional. O tempo de resposta para as aes do motorista  reduzido. Ainda que na ordem de milsimos de segundo, essa diferena pode ser determinante em alta velocidade. O sistema tambm filtra imperfeies na pista. Vibraes causadas por defeitos no asfalto so interrompidas antes de chegar ao volante e atrapalhar o motorista. Um sistema complementar usa uma microcmera sobre o retrovisor para projetar uma linha reta imaginria baseado nas linhas pintadas na estrada, criando uma leve resistncia no volante (que no reduz a autonomia do condutor). Essa correo visa a evitar derrapagens em curvas feitas em velocidade elevada.
     A extino da barra de direo  mais um dos recursos eletrnicos que vm sendo adotados em carros de linha. Primeiro, foi a substituio do carburador pela injeo eletrnica de combustvel  tecnologia implantada na dcada de 60. Hoje, j esto disseminados mecanismos que, por computadores de bordo, auxiliam o motorista a estacionar, monitoram o entorno do veculo, aumentam a estabilidade e usam acelerao e frenagem eletrnicas. Disse a VEJA o analista americano Joe Langley, da consultoria para o setor automotivo LMC: O rpido desenvolvimento tecnolgico a custo relativamente baixo tem transformado o carro em um sensor, que interage com o ambiente de forma autnoma. Isso vai balizar a indstria nos prximos anos. Os primeiros modelos da Nissan equipados com o steer-by-wire sero os da linha Infiniti, a mais luxuosa da marca. 

A EVOLUO DO COMANDO DAS RODAS
 Na direo convencional, o volante gira a coluna de direo, que, por um sistema de engrenagens, desloca as rodas.
 Nos carros mais modernos, a direo hidrulica, que usa leo, e a eltrica, que usa um pequeno motor, tornam mais fcil girar a coluna de direo.
 Na direo eletrnica, os giros do volante so captados por trs processadores, que transmitem os comandos eletronicamente para as rodas (uma coluna de direo convencional  mantida apenas para casos de emergncia).

GUSTAVO SIMON


8. SADE  VIDAS REPAGINADAS
Pais de jovens portadores de sndromes genticas, como a de Down, permitem que eles faam plsticas. Acreditam que as cirurgias podem melhorar a vida de seus filhos e no significam rejeio.
MARIANA AMARO

     Se existe uma rea em que a humanidade comprovadamente avanou foi no tratamento de pessoas com diferenas decorrentes da formao gentica. No caso dos que nascem com sndrome de Down, a forma de situ-los no tecido da sociedade e as modalidades de tratamento teraputico, da mais simples  altamente complexa, trouxeram avanos importantes. Fonoaudilogos aperfeioam a fala e cirurgies cardacos corrigem os problemas no corao que afetam 50% de todos os que tm a sndrome. Instrutores de ginstica do exerccios fsicos para reforar o tnus muscular rebaixado e psiclogos ajudam a lapidar as habilidades cognitivas. A expectativa de vida de quem tem Down aumentou de 30 para 60 anos e a participao dessas pessoas na vida social tambm cresceu visivelmente. Mais recentes e menos comentados so os procedimentos estticos que suavizam desalinhos fsicos tpicos da sndrome e tambm contribuem para aprimoramentos funcionais. Compreensivelmente, existe um intenso debate sobre a convenincia desse tipo de tratamento.
     Paula Wemeck  uma carioca de 25 anos que toca bateria, joga vlei e trabalha em uma cantina. Sua vida melhorou em muitos aspectos. At cinco anos atrs, ela sofria de dores de cabea e s comia alimentos moles por causa dos dentes frgeis e pequenos. Quando a arcada dentria superior encostava na inferior, seu maxilar era todo projetado para a frente. Da, as dores. Levada pela me, durante quatro anos a jovem passou por um tratamento que aumentou em 4 milmetros cada um de seus dentes. Com o maxilar reposicionado, o pescoo e o queixo de Paula ganharam novas curvas. O lbio superior tambm foi reposicionado e at as dobras de pele embaixo dos olhos, outra caracterstica da sndrome, ficaram mais suaves. As dores de cabea sumiram e o sorriso de Paula ficou mais iluminado ainda. Antes do tratamento dentrio, ela j havia se livrado das dores nas costas com uma cirurgia de reduo de mamas. Algumas pessoas da minha famlia falavam que eu estava fazendo minha filha sofrer, que eu tinha de aceit-la como ela era. Fui em frente porque sabia que isso ia fazer minha filha viver com mais qualidade, diz a arquiteta Helena Werneck, me da jovem. Eu fiquei mais bonita, comemora Paula, que chegou a chorar de felicidade ao ver no espelho o resultado das intervenes. Ela est namorando pela primeira vez. 
     Corrigir orelhas de abano que causam embarao s crianas ou diminuir os seios de adolescentes vergadas pela exuberncia mamria no so intervenes que provoquem repdio social. Por que com a minha filha seria diferente?, indaga a me de Paula. Pensando da mesma maneira, o corretor de imveis Louis Cardillo e sua mulher, Samantha, americanos de Nova York, sofriam com a rejeio sentida por seu filho mais velho, Charlie, 15, cada vez que ele era chamado de Dumbo pelos colegas  um tormento para quem tem Down, como ele, e para quem no tem. Charlie no gostava das orelhas e falava que tinha vergonha das meninas, relata Samantha. Um cirurgio plstico conhecido da famlia se ofereceu para fazer a operao. Tnhamos forte a lembrana da cirurgia que Charlie havia feito com 1 ano, para corrigir uma cardiopatia. Quase desistimos quando pensamos em enfrentar de novo o medo da anestesia, relembra a me. Tomaram a deciso com o pedido do filho. Foi uma alegria quando tiramos os curativos. Ele sorriu, chorou e disse que estava igual ao pai. Dias depois, Samantha e Louis receberam e-mails de pessoas que no aceitavam a cirurgia e os acusavam de tentar esconder a condio do filho.
     A cirurgia para orelhas de abano  a mais comum em jovens com Down. Alm de corrigir as orelhas, fao um mini-lifting no rosto desses pacientes de maneira a puxar a pele para cima. Caso contrrio, a orelha cai de novo, diz o cirurgio plstico Juarez Avelar. Como a interveno  apenas esttica, uma parcela grande de mdicos critica a prtica. Quem tem Down carrega no rosto um carimbo.  preciso mudar o jeito, cheio de constrangimento, como as pessoas olham para quem tem a sndrome. No mudar o rosto deles, diz Ana Brando, pediatra especializada em crianas com Down do Hospital Albert Einstein e me de Pedro, 17, que tem a sndrome. Muitas dessas cirurgias so dolorosas e, acredito, desnecessrias. Entre as mais dolorosas est a de reduo da lngua, em razo da quantidade de terminaes nervosas. Protuberante nos portadores de Down, ela tende a ficar para fora da boca. H estudos que mostram que a cirurgia melhora a respirao, a fala e a mastigao, mas as divergncias permanecem.
     Os sentimentos de proteo dos pais, intensificados com os filhos especiais, e a discusso tica sobre a necessidade de certas intervenes so fatores que desaparecem no caso de cirurgias funcionais necessrias para portadores de outras sndromes genticas, como a de Crouzon e a de Apert. Quando um beb nasce, os seis ossos que formam o topo do crnio esto separados para que o crebro tenha espao para crescer. Esses ossos comeam a se fechar no primeiro ano de vida. Em crianas com Crouzon e Apert, uma ou vrias das fendas entre os ossos se fecham antes do tempo. Para compensar o espao perdido, o crebro cresce em outras direes e provoca deformidades na cabea e no rosto. A cirurgia para mant-las abertas precisa ser feita antes dos 2 anos de idade. Do contrrio, a criana ter problemas cognitivos, de fala e de crescimento. Colocamos molas entre esses ossos para garantir que a fissura no se fechar antes da hora de novo, explica a cirurgi plstica Vera Cardim, do Hospital Beneficncia Portuguesa. Depois de um ano, as pequenas molas so retiradas em nova cirurgia.
     A sorocabana Thais Barbosa, 19, nasceu com Crouzon e sua cabea teve um crescimento anormal para trs, o que fez com que os ossos do rosto ficassem afundados. Quando completou 2 anos, Thais passou por uma cirurgia para implantar as molas. Tambm teve fios de ao acoplados  arcada dentria superior. Presos, internamente, a ossos do rosto, os fios foravam a mandbula e o nariz para a frente. No ltimo ano, Thais fez mais duas operaes, de cunho esttico, para reposicionar o olho esquerdo, redesenhar o queixo com autoimplante de gordura e puxar os ossos da face. Valeu o sacrifcio. Mudei muito e arrumei um emprego, responde Thais. Antes, as pessoas ficavam me encarando e cochichando.

OPERAES DELICADAS
Alteraes genticas causam desalinhos fsicos que podem ser mudados com cirurgias. Veja as intervenes mais comuns em trs casos.

SNDROME DE DOWN
O que : O cromossomo 21, em vez de ser formado por um par herdado dos pais, ganha um terceiro elemento.
Sinais exteriores: Alteraes de estatura, musculatura, pescoo, olhos, orelhas, lngua, boca e dentio.
Cirurgias: Correo do formato das orelhas, diminuio da lngua, retirada das pregas das plpebras.

SNDROME DE CROUZON
O que : Mutao de um gene, chamado FGFR2, responsvel por coordenar o encaixe dos ossos do crnio e do rosto.
Sinais exteriores: Deformidades na cabea, ossos faciais afundados, olhos separados, testa protuberante.
Cirurgias: Separao e remodelagem dos ossos do crnio, realinhamento de maxilar, olhos e nariz.

SNDROME DE APERT
O que : Outro tipo de mutao do mesmo gene FGFR2 afeta os ossos das laterais do crnio.
Sinais exteriores: Parte superior da cabea alta e afilada, ossos faciais afundados, dedos grudados, lbio leporino.
Cirurgias: Remodelagem do crnio e do maxilar, separao dos dedos, correo do lbio superior fendido.




9. TECNOLOGIA  A APPLE CORRE ATRS
A empresa que inventou o iPad rende-se a uma ideia da concorrncia, o tablet de menor tamanho. A maior diferena  que o iPad Mini custa mais caro que os modelos de outras marcas.
FILIPE VILICIC

     A Apple ter perdido a capacidade de causar euforia entre os consumidores? A apresentao do iPad Mini na tera-feira da semana passada foi cercada do habitual espetculo montado pela companhia para o lanamento de produtos. A diferena foi a reao do pblico, bastante morna desta vez. A falta de entusiasmo no se deve  tecnologia. Os recursos da verso reduzida do campeo de vendas da Apple (100 milhes de unidades em dois anos e meio) no fazem feio no universo dos tablets. O problema no est no tamanho, bom para caber numa pasta. Com tela de 7,9 polegadas e espessura de um lpis, o Mini  1,8 polegada menor, 23% mais fino e tem metade do peso do iPad convencional. O que assustou foi o preo. Ele  o mais caro na linha dos tablets pequenos, os de tela entre 7 e 8 polegadas. A verso mais simples, com 16 gigabytes de memria e wi-fi, custa 65% mais que o Kindle Fire HD ou o Nexus 7, os principais concorrentes. A resoluo de tela  inferior  dos rivais e a capacidade de processamento  a metade da do iPad grande, cuja quarta gerao tambm foi apresentada na tera. A concluso quase unnime dos especialistas  cuja opinio pesa nas decises de compra   que o Mini  caro demais para o que oferece. Pelo que custa, seu concorrente direto passa a ser a verso bsica do iPad de 9,7 polegadas. A reao adversa logo foi medida pela queda de 3% nas aes da Apple em um nico dia, algo atpico para a empresa mais valiosa do mundo, acostumada a ver investidores disputar aes aps cada lanamento.
     Lanado em 2010, o iPad foi o primeiro tablet e ainda  o mais vendido, com 68% do mercado. Mas tem sentido a presso exercida por opes menores e mais baratas. Calcula-se que a Apple tenha vendido 16 milhes de tablets nos ltimos trs meses, 2 milhes aqum do esperado. A consultoria americana Forrester, especializada nessa indstria, estima que a Apple poderia ter vendido 15 milhes a mais se tivesse lanado antes um tablet menor. Mesmo com o porm do preo,  natural que o Mini venda bastante no incio, pelo fascnio que a Apple exerce sobre os consumidores. S que essa magia est em decadncia, disse a VEJA o consultor Charles Golvin, da Forresrer.
     As energias da empresa se concentram mais nos processos judiciais contra a concorrncia, especialmente a Samsung, do que no setor de desenvolvimento. Nem o Mini nem o recm-lanado iPhone 5 trazem novidades dignas da tradio da Apple. A fabricao de um iPad de menor tamanho, por sinal, fora vetada por Steve Jobs, fundador da Apple, morto no ano passado. Ele achava que seria preciso lixar os dedos para usar esses tablets. Jobs foi genial na maioria das suas ideias, mas nisso errou. Como muita gente prefere comprar aparelhos menores, a Apple repensou a estratgia, ainda que sem grandes inovaes. O fato de o Mini se parecer com o Nexus 7 pode indicar que a Apple est perdendo o pique de inovao, opina Patrick Moorhead, presidente da americana Moor Insights & Strategy. Como o Mini s chega s lojas dos Estados Unidos neste fim de semana,  cedo para saber o comportamento do consumidor. At l,  bom usar da mesma cautela manifestada por Phill Schiller, vice-presidente de marketing da Apple: Deixemos a deciso para quem comprar.

iPad Mini
Espessura (em centmetros): 0,72
Peso (em gramas): 308 ou 321 (a verso com 3G ou 4G  mais pesada)
Preo (em dlares) no h previso de preo no Brasil: 329 a 659

iPad (4 gerao)
Espessura (em centmetros): 0,94
Peso (em gramas): 652 a 662 (a verso com 3G ou 4G  mais pesada)
Preo (em dlares) no h previso de preo no Brasil: 499 a 829

iPhone 5
Espessura (em centmetros): 0,76
Peso (em gramas): 112
Preo (em dlares) no h previso de preo no Brasil: 199 a 399

Os rivais que o iPad quer desbancar
Nexus 7 - Google
Espessura (em centmetros): 1
Peso (em gramas): 340
Preo (em dlares) no h previso de preo no Brasil: 199 ou 249

Kindle Fire HD (amazon)
Espessura (em centmetros): 1
Peso (em gramas): 395
Preo (em dlares) no h previso de preo no Brasil: 199 ou 249


10. AVIAO  COM JEITINHO, CABE MAIS UM
A mais recente estratgia das companhias areas para aumentar o nmero de passageiros nos voos  instalar poltronas menores e com encosto mais fino.
CAROLINA MELO

     A impresso dos passageiros da classe econmica de que  cada vez menor o espao para acomodar os joelhos ao sentar na poltrona nada tem de ilusria. Desde o incio dos anos 80, as companhias areas diminuram em 7,6 centmetros, em mdia, a distncia entre o encosto de um assento e as costas do assento  frente. Fizeram isso para acomodar mais poltronas nas cabines, a fim de enfrentar um aumento do trfego areo global da ordem de 260% entre 1980 e 2011. A mais recente medida das empresas areas para ampliar a quantidade de assentos nos avies  substituir as poltronas convencionais por um modelo menor, mais fino e mais leve. As novas poltronas utilizam menos metal e mais fibra de carbono, o que torna sua estrutura mais malevel. Dessa forma, o assento e o encosto no necessitam de uma camada to grossa de acolchoamento, o que reduz a quantidade de espuma utilizada sem aumentar o desconforto do passageiro. Ao contrrio, com a lateral do encosto mais estreita. ele ganha 4 centmetros de espao para as pernas.
     Para as companhias areas, as novas poltronas representam a possibilidade de instalar mais duas dezenas de assentos nos modelos de aeronaves mais utilizados em voos de curta e mdia distncia, como o Boeing 737. Elas tambm so 30% mais leves do que as poltronas convencionais, o que resulta em economia de combustvel. A Lufthansa j instalou 2000 poltronas adicionais em 168 aeronaves Airbus A320. Seria preciso comprar doze aparelhos novos para obter igual aumento na oferta de assentos nos avies que j possua.
     A mudana para as poltronas de carbono  feita principalmente pelas companhias areas de baixo custo. Disse a VEJA Mark Hilier, CEO da alem Recaro, fabricante que j vendeu mais de 150.000 poltronas do novo modelo a uma dezena de companhias areas europeias, americanas e asiticas: Uma pesquisa com os passageiros mostrou que a maioria prefere as novas poltronas, pois elas so ergonmicas e oferecem mais espao para as pernas. A americana Southwest est fazendo a substituio em toda a sua frota de Boeings 737. A companhia calcula que, com a incluso de uma nova fileira de poltronas em cada avio, sua receita anual poder crescer 200 milhes de dlares. A Qatar e a United tambm tm projetos de substituio. No Brasil, a Gol receber o primeiro aparelho equipado com as novas poltronas no ms que vem.  bom lembrar que poltronas com mais espao para as pernas no se traduzem necessariamente em maior comodidade para os passageiros. Um avio mais cheio significa mais filas para entrar e sair e tambm para utilizar o banheiro. Alm disso, um nmero maior de passageiros resulta em mais disputa pelos compartimentos de bagagem de mo, j que esses continuam com o mesmo espao de sempre.

O APERTO NOS AVIES  MAIOR,...
Aeronave A320
Equipada com poltronas convencionais  Nmero de passageiros, em mdia: 150
Equipada com as novas poltronas  Nmero de passageiros, em mdia: 178

...MAS O ESPAO PARA AS PERNAS AUMENTOU
Espao mdio entre o encosto da poltrona e as costas da poltrona  frente:
Poltronas convencionais: 57,1 cm
Poltronas novas: 61,3 cm

Fontes: Lufthansa e Recaro

A DIFERENA EST NO MATERIAL
     A mesma fibra de carbono que permite s novas poltronas instaladas nas aeronaves ser menores, porm confortveis,  um dos principais trunfos tecnolgicos do prximo modelo de grande porte a ser lanado pela indstria aeronutica  o Airbus A350. Com previso de entrada em operao em 2014, o A350 tem 53% da fuselagem e das asas compostas de fibra de carbono, um material muito mais leve e resistente do que o alumnio, que em geral  usado na fabricao de avies. Em consequncia disso, o A350 gasta menos combustvel que os avies de seu porte, suas turbinas so mais silenciosas e sua manuteno  mais fcil e barata, j que o material no sofre corroses e apresenta menos fadiga.
     Oferecido em trs modelos, com capacidade para levar de 270 a 350 passageiros, o A350 foi criado para concorrer diretamente com o Boeing 787 Dreamliner, que entrou em operao no ano passado, tambm tem metade de sua estrutura feita de fibra de carbono e  um grande sucesso de vendas, com 838 encomendas  embora apenas 26 deles estejam em operao. Os pedidos do A350 j somam 558 unidades. Segundo os especialistas em aviao, durante o desenvolvimento do Dreamliner, ainda na fase inicial de testes, sem que o modelo tivesse voado pela primeira vez, a Boeing enfrentou uma srie de problemas com relao  utilizao dos novos materiais. O uso da fibra de carbono desafiava os clculos matemticos convencionais no projeto das asas da aeronave. No desenvolvimento de seu novo modelo, a Airbus pde aprender com essas falhas da concorrncia.
RENATA LUCCHESI


11. HISTRIA  POR BAIXO E POR CIMA DOS PANOS
A exposio O impressionismo e a Moda, em cartaz no Museu DOrsay, traa um paralelo entre a pintura moderna e a moda como fenmeno capitalista.
MARIO SABINO, DE PARIS

     Os americanos transformaram parques de diverso infantis em organizaes srias. Os franceses, por seu turno, transformaram organizaes srias, como museus de arte, em parques de diverso esttica. Parques de diverso esttica se traduzem em exposies com cenografia e didatismo, conceitos inexistentes na rea museolgica at os anos 1980. timo para os nefitos em matria artstica; excelente para os que j adestraram um pouco os olhos com a boa pintura e escultura. Os primeiros saem de tais mostras como de uma aula bem dada; os segundos experimentam o prazer de faxinar imagens e ideias que j andavam no s empoeiradas como dispersas pelos cantos do crebro. Toda essa introduo  um elogio  exposio O Impressionismo e a Moda, em cartaz em Paris at 20 de janeiro.
     Assim como o nosso tempo j no suporta romances de oitocentas pginas, ele tambm no  propcio a mostras com centenas de obras. A pacincia contempornea no ultrapassa o limite de um carto de crdito de um assalariado mediano. O Impressionismo e a Moda conta com essa vantagem adicional   compacta, como diria um vendedor de carros pequenos. No total, so apenas seis salas, que compem uma bela narrativa de como a moda, na condio de fenmeno capitalista, e o impressionismo, como expresso coruscante da sociedade moderna surgida na segunda metade do sculo XIX, nasceram juntos  no como gmeos, mas como primos.
     Vamos adiantar o relgio, at o inicio do sculo XX, para tomar emprestada uma frase de Coco Chanel, registrada pelo escritor Paul Morand no livro LAllure de Chanel. A Coco Chanel que tambm  produto do que j estava sendo gestado meio sculo antes. A Coco Chanel que libertou as mulheres de todas as amarras de indumentria que concretizavam sua condio de fmeas submetidas pelo macho. Pois foi essa Coco genial quem disse: A moda no  uma arte,  uma profisso.  uma glria para a moda que a arte se sirva dela. E fornece um exemplo de como se trata de uma profisso pginas adiante, quando conta a Morand que, nos idos de 1920, cansada de andar na areia da praia do Lido, em Veneza, com sandlias de couro que lhe queimavam os ps, pediu a um sapateiro local que cortasse uma placa de cortia na forma de duas palmilhas e nelas ajustasse duas correias. Dez anos mais tarde, as vitrines da Abercrombie, em Nova York, estavam repletas de sapatos com palmilhas de cortia, completa a artes mais clebre do primeiro mundinho fashion.
     Os impressionistas se serviram dos produtos dessa profisso como ningum na histria da arte. Manet, Monet, Czanne, Degas, Renoir e outros de estatura semelhante pintaram roupas no como anteparo, moldura ou smbolo de poder e condio social do indivduo, como os que os antecederam, mas como parte da essncia de suas representaes e da realidade que elas integravam. A indumentria adquiriu a caracterstica de uma segunda pele a ser refletida, em suas nuances, pelas pinceladas rpidas que buscavam lanar uma luz indita sobre o mundo. Uma segunda pele a ser captada no farfalhar dos vestidos j no to armados, embora nem to desarmados como durante o perodo napolenico, e agora desfilados nos teatros, sales e bulevares da Paris que se aburguesava. A cidade onde mais e mais gente queria ver e ser, vista  inclusive homens, os dndis, a quem um pedao da exposio no Museu DOrsay  dedicado (mas quem se importa com homens?).
     Havia trs tipos de roupa que compunham o cotidiano de uma parisiense abastada: o hbito da manh, o da tarde e os vestidos de noite. Na exposio, ao lado das pinturas, amostras deles esto presentes, admiravelmente preservadas, em vitrines que serpenteiam pelas salas. H tambm uma profuso de chapus. A roupa da manh no era para ser vista por estranhos, mas os impressionistas adentraram a intimidade das mulheres de seus mecenas, que deixavam as reticncias na gaveta em nome menos da arte do que do narcisismo. Por meio do impressionismo, a moda ganhou aura. Por meio da literatura de Emile Zola e Charles Baudelaire, entre outros escritores cujas frases sobre moda esto escritas nas paredes da exposio, ela adquiriu certa profundidade sociolgica. Mas foi graas aos grandes magazines inaugurados nesse perodo fervilhante, e ambientes do romance Au Bonheur des Dames, de Zola, que a moda parisiense ganhou o planeta, passando a ser vendida em escala industrial e copiada por comerciantes dos diferentes continentes (parnteses: o Bon March est fazendo 160 anos e, para comemorar, exibe continuamente um documentrio delicioso sobre a Paris de Catherine Deneuve).
     A mostra traz artigos de jornal sobre os magazines ento recm-abertos, fotos que compunham sries encomendadas por exibicionistas (no sentido da moda, no da perverso,  evidente) e uma variedade de catlogos. Dois deles foram fontes de inspirao para pinturas de Czanne, igualmente expostas. Muito curioso. Outro aspecto que chama ateno  a justaposio entre uma pintura de Albert Bartholom, intitulada Dans la Serre, em que ele retrata sua mulher numa estufa, e o vestido que ela usava quando posou para a obra. Bartholom conservou-o depois que ela morreu, e hoje a pea pertence ao acervo do DOrsay. Uma prova de amor de bolinhas roxas e mangas listradas.
     A pintura mais emblemtica  Jeune Dame en 1866, de Manet, conhecida ainda pelo ttulo La Femme au Perroquet, porque inclui um papagaio (nada ortodoxo, azulado e com jeito de coruja). Especialistas afirmam tratar-se de uma alegoria dos cinco sentidos. O paladar representado por uma laranja semidescascada ao cho; o olfato, pelo buqu de violetas que a modelo tem em uma das mos; a audio, pelo ouvido que ela parece estender para escutar o papagaio; a viso, pelo monculo na outra mo; e o tato, por meio do cetim do seu penhoar. Alegoria ou no, o elemento principal  o penhoar desestruturado, que d a impresso de a modelo ter um corpo de pano. A cor, rosa-salmo, no existia at 1860, e foi objeto de comentrios antipticos de crticos da poca. O escritor Thophile Gautier, dando voz  maioria, disse que, de um rosa falso e esquisito, o robe no deixa adivinhar o corpo que ele recobre. Zola, no entanto, recomendou aos senhores parisienses a viso daquele penhoar admirvel. Gostou da tendncia. Sabia o que fazia a felicidade das damas.

FOI-SE A RAINHA, RESTARAM OS SAPATOS
Maria Antonieta tinha pezinhos de fazer enlouquecer um podlatra. Calava, pela numerao brasileira atual, 35. E sabia valorizar esse atributo com uma coleo de sapatos com cores vivas e laarotes graciosos. Um dos ltimos pares sobreviventes e autenticados por experts foi leiloado recentemente em Paris por 62.460 euros. Os escarpins foram fabricados nas cores preferidas da mulher de Lus XVI  verde, com listras rosadas , sob encomenda de um cavalheiro que estava a seu servio em 1775. Alexandre-Bernard Ju-des-Rets. Os sapatos pertenciam a descendentes seus e foram comprados por um colecionador particular. No mesmo leilo, foram vendidos as algemas que ela usou ao ser enviada para a priso du Temple (6870 euros) e um pedao do vestido que trajava antes de ser presa (6121 euros). Todos os itens alcanaram cifras bem acima dos lances iniciais, no que talvez seja uma prova de que a histria tenha se reconciliado com Maria Antonieta, a austraca guilhotinada na Revoluo Francesa, como se fosse uma rainha m de conto de fadas  que mandava os famintos comer brioches, se no tinham po, e outras vilezas. Frase que lhe foi falsamente atribuda pelo jornalismo de esgoto da poca, do qual o maior expoente foi Jean-Paul Marat, apunhalado na banheira por uma senhorita pertencente a uma faco revolucionria inimiga. Embora no se trate de revisionismo, desde o incio da dcada passada, historiadores comearam a investigar com mais neutralidade a biografia de Maria Antonieta. A frente deles, est a britnica Antonia Fraser, em cujo livro a diretora americana Sofia Coppola se baseou para fazer o filme Maria Antonieta, de 2006, estrelado por Kirsten Dunst. A Maria Antonieta de Sofia Coppola  pop. A de Antonia Fraser  corajosa. Enquanto tentava evitar a morte de sua famlia, ela escreveu, em outubro de 1790, trs anos antes de pisar o cadafalso: Deus, se cometemos falhas, j as expiamos em demasia!. Foi-se a rainha, restaram os sapatos. Poucos e caros.


